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Crónica Paulistana

por neves, aj, em 29.05.04

... crónica de deambulações bem intencionadas em busca de raízes lusitanas, algumas com cheirinho afro-brasileiro.
(Redigido Maio/2003)


Casa de Portugal - São Paulo

Pensava eu que em tamanha urbe os sinais da presença portuguesa seriam múltiplos e variados. Talvez sejam sim, dada a imensidão da cidade de S. Paulo, mas não tão evidentes como eu idealizara. Sendo uns mais notórios que outros, parta-se sempre da premissa que é necessário buscar... procurar, observando atentamente e conviver dialogando qual pêjota em investigação aturada.
Noutros tempos, as marcas lusitanas eram muitas mais... quem mo apregoa é o Ramiro, patrício nascido em terras bragantinas e que rumou a estas paragens com apenas 16 primaveras nos idos anos da década de cinquenta. De aspecto jovial e brejeiro quanto baste, este nosso compatriota -acérrimo defensor da pátria lusa, tem a faculdade de me fazer transportar até ao nosso Portugal principalmente através de animados debates futebolísticos. Torcedor, melhor dizendo sofredor pelos vermelhos da Luz outro remédio não teve que reconhecer o domínio dos homens das Antas. Mas, p'ro ano... ah menino, diz-me ele. [Afinal, passado esse ano que o amigo Ramiro citou, nesta altura em que transcrevo, o Porto levou novamente o campeonato, mas vá lá o Glorioso (como ele gosta de frisar) conseguiu arrecadar a Taça de Portugal]
. Foi-me apresentado por senhora brasileira de nascença, mas com coração bem português tais são as fortíssimas raízes lusitanas. De seu nome Inês, tal como "a que foi rainha depois de morta", como faz questão em afirmar, é proprietária de banca de jornais (onde uma ou outra publicação portuguesa se intromete nos tablóides brasileiros) e curiosa por tudo que "fale português" não dispensa uma vista de olhos pelo Defesa da Beira, o semanário da nossa terra que pontualmente chega até mim na Quarta ou Quinta-feira seguintes à sua publicação.
Situada em pequena praça, a citada banca é ponto de encontro para amenas cavaqueiras onde culturas díspares como a grega, alemã ou japonesa se misturam com as recordações das
serranias egitanienses cobertas de neve no Inverno lembradas pelo sr. Manuel ou as interrogações que me colocam sobre coisas de Salazar e do seu torrão natal.
Vais à Praça da República,no centro, diz-me a Inês. Lá encontras jornais do teu país, numa banca dum português.
Pego o metrô na estação de Vila Madalena no bairro do mesmo nome (onde resido) e que foi erguido pelas mãos dos portugueses nos tempos áureos da imigração, faço uma baldeação no Paraíso e apanho outro trem passando pela Liberdade (onde voltarei mais tarde) e desço na gare da República.
Logo ao sair da estação, as letras vermelhas do logotipo inconfundível d'A BOLA aparecem aos meus olhos. Mesmo sendo número atrasado adquiro um exemplar. Carote, mas cheira a Portugal! Palavra puxa palavra e aqui estou eu à conversa com mais um transmontano saudoso da sua terra.

A Praça!
Multidão. Jovens, principalmente. Loucura, beleza e cultura!
Os acordes melodiosos das flautas pluritubulares beijadas por jovens de tez escura e vestidos com trajes tradicionais invadem os ares e transportam-me à cordilheira dos Andes. As raízes africanas também marcam presença... homens e mulheres de cabelos negros compridos e desregrados expõem, em pano estendido no chão, as peças de artesanato feitas em madeira ou com missangas [miçangas no Brasil], enquanto as mãos habilidosas vão dando os últimos retoques noutras. Também se desenha a expressão de quem passa e vendem-se pedras semi-preciosas. Variado leque de livros expostos em banca apresenta-se aos meus olhos e de
José Saramago, autor assaz querido no Brasil, comprei o Homem Duplicado que ofereci com carinho, satisfação e orgulho. Durante semanas, esta última obra do Prémio Nobel foi líder no mercado de vendas nas livrarias de S. Paulo e importa sublinhar que "por desejo do autor, foi mantida a ortografia vigente em Portugal" é expressão impressa na apresentação da obra. Sintomático, não? Mas, na Praça da República as doçarias marcam igualmente presença, desde os tradicionais e afamados doces de Minas(Gerais) às pequenas balas, a que nós apelidamos de rebuçados. Baianas de epiderme escura, com o característico turbante na cabeça e de saia rodada,fritam em azeite-de-dendê os acarajé feitos de massa de feijão-fradinho ou servem em folha de árvore qualquer, porções de vatapá que é um prato muito apimentado feito com peixe ou galinha. A mistura dos odores é indefinível e indescritível. Só a pituitária de cada um o pode entender.
O seiscentos e dois da Avenida da Liberdade é soberbo.
A imponência granítica da
Casa de Portugal destaca-se em zona apelidada de bairro japonês. Inevitavelmente o comércio reina: bancas de camelôs oferecem-nos CDs piratas [com garantia], os relógios abundam, assim como todas as tradicionais japonesices possíveis e imagináveis. Também mininas sugestivamente (pouco) vestidas encostadas às paredes de edifícios hoteleiros lançam olhares lascivos ao passante.
A movimentação é enorme e dizem que lá para a noite é zona a evitar. Por questões de segurança...
No quarto andar do edifício da Casa de Portugal em S. Paulo funciona em instalações exíguas (por empréstimo ou aluguer) o
Consulado Português, que representa o nosso país nesta cidade e que presta apoio aos nossos compatriotas e descendência. Ressalvo. Deveria prestar apoio, pois o serviço de atendimento situa-se ao nível do das nossas repartições públicas de outrora em dias de mercado semanal, por exemplo. Mas a sumptuosidade das instalações abafa os resmungos dos funcionários do Consulado (talvez os menos culpados) e são dignas de serem visitadas. A chefe administrativa da Casa solicitamente se prontificou e visitei o Instituo Camões, a Câmara Portuguesa de Comércio, a Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, a Biblioteca e dois faustos salões, o Nobre e o de Eventos Sociais.
Inaugurada em 27 de Dezembro de 1955 e já visitada por vários presidentes e primeiros-ministros do nosso país, esta Casa é um verdadeiro ponto de encontro da cultura lusófona. Logo no átrio de entrada apresentam-se dois painéis. O da direita, do lado de quem entra, revela-nos a pose conquistadora de
D. Afonso Henriques, fundador da nacionalidade, no ano de 1143 e na parede oposta temos D. Manoel da Nóbrega, padre jesuíta a quem é atribuída a fundação de S. Paulo em 25 de Janeiro de 1554.
Por delicadeza e talvez devido a coincidências de programação fui convidado a assistir, dois dias depois, ao espectáculo ímpar de Rão Kyao e sua banda, agora constituída por uma mescla de acordes afros, indianos e lusos e que são ainda complementados em algumas músicas por uma voz maravilhosa de fadista "desconhecida" de seu nome Deolinda.
A magia da flauta de bambu causou uma certa nostalgia. É verdade, não nego!
No entanto, o delicioso presunto de Chaves e os bolinhos de bacalhau oferecidos aos presentes, maioritariamente com raízes lusitanas, depressa abafaram esse sentimento a que teimam chamar de saudade.
Pela minha parte retribuí.
Homem prevenido vale por dois. Mas, não foi bem com a intenção de me duplicar que me dirigi, antes de viajar, à nossa Câmara Municipal para que me oferecessem padrões santacombadenses que poderia erguer nestas terras. E se em boa hora me lembrei, em momento óptimo me obsequiaram, pois hoje a medalha
Pelourinho, Câmara e Seu Brasão da Cidade de Santa Comba Dão, esculpida pelas mãos firmes e hábeis de David de Oliveira, pode ser admirada nas vitrinas da Casa de Portugal em S. Paulo.
E não poderia arranjar melhor remate para a minha crónica de hoje...

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publicado às 13:19




  


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