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O Avozinho

por neves, aj, em 19.06.04
... porque isto de “Pátrias Irmãs”, parece que já era!  Renovado

Desde já fica o alerta (manda a ética jornalística) que o título dado a esta Crónica não será propriamente meu. Mas afirmo, e em consciência, que não considero que esteja a cometer plágio, tratando-se sim de uma citação e ao invés de vir a usufruir proveito presto homenagem a um dos mais notáveis escritores portugueses. Em termos mais correntes até direi que a titulação será uma forma de juntar o útil ao agradável.O vocábulo, ouvi-o durante uma entrevista ao nosso Nobel da Literatura em canal televisivo aquando da sua última passagem por São Paulo para fazer o lançamento de (mais) um livro seu e, em aproveitamento de estada, presidir a vários colóquios.Instado a comentar o crescendo de um distanciamento (cultural e não só) entre as Pátrias Lusa e Brasileira, José Saramago na sua dialéctica mui própria, incisiva e pausada, fez então a analogia com o avô e o neto, com este a olhar com carinho para o antepassado e seu legado, mas não abdicando das suas vontades próprias e construir “o seu mundo à sua maneira”.Tem toda a razão o “velho lobo” da literatura portuguesa, pois é facto indesmentível que a cultura brasileira é ímpar no mundo. Basta lembrarmo-nos que ela brotou do enlace entre as raízes autóctones e as sementes lusas, africanas e (também) holandesas e posteriormente, já com o Brasil–nação independente, essa cultura sofreu a influência alemã, italiana e oriental. E não nos podemos esquecer que o Brasil faz parte do continente americano, o “Novo Mundo”, condição mais que bastante para divergir do avozinho que lhe deu “vida”, esse Portugal que está lá, lá bem longe na “Velha Europa”.No entanto, os sinais do avozinho por terras de Vera Cruz são muitos e são admirados, com os agentes da Cultura preocupados na sua preservação. Os diversos canais televisivos fazem grande divulgação ora das fortificações coloniais do litoral nordestino e das esplendorosas Igrejas da época ora de pequenas cidades fortemente vincadas por marcas lusitanas, como Paraty no estado do Rio ou Ouro Preto (Minas Gerais) que herdou a denominação do ambicionado metal amarelo existente no seu subsolo e já é classificada como Património da Humanidade. Por outro lado, é verdade também que o brasileiro, principalmente o de raízes lusas, em visita à casa de seu ancestral (mesmo que através de imagens) não se cansa de admirar as suas obras e os seus usos e costumes. Fá-lo apaixonadamente, com ternura e admiração. Fica encantado com as iguarias gastronómicas, surpreende-se com algumas expressões que o “velhote” usa e com as casitas que construiu, sejam elas as monumentais que foram erguidas para perpetuar os feitos históricos de Gama e outros, sejam as rústicas de paredes graníticas da Beira ou as transmontanas em xisto.Se essas viagens ao passado são dignas de registo, já as actuais trocas de saberes entre os dois povos deixam muito a desejar. Vem nos cânones que elas, as trocas culturais, são uma forma de as gentes melhor se conhecerem e se aproximarem. Mas, troca. implica reciprocidade e isso não está a acontecer. Por culpa não sei de quem a música portuguesa entra aqui por porta minúscula e se as nossas indústrias cinematográfica e televisiva conseguem romper barreiras então o impensável acontece: filmes legendados, como Capitães de Abril e séries de TV dobradas no português entendido por estas bandas.E isso dói.Dói muito ver a “figura” de Ruy de Carvalho ou a de Eunice Muñoz e não sentir nos tímpanos as suas vozes inconfundíveis e que tanto os caracterizam. E assim, se antes nunca fui conquistado pelas novelas também não o serei agora com a “mexicanizada” Olhos d’Água, uma telenovela de produção portuguesa que foi exibida pela nossa TVIndependente e que agora passa na televisão brasileira. E a razão é simples.... torna-se intragável escutar as falas dos nossos actores num “português tão insosso” que até parece que estou perante uma novela produzida no país dos sombreros, daquelas que também costumam passar nas nossas televisões. A “dublagem para português do Brasil” é explicada pela TV BANDeirantes com a dificuldade dos potenciais telespectadores em entender certas expressões portuguesas e “a forma menos pausada das falas”... Zé Povinho, de Bordalo Pinheiro, não se escusaria ao comentário (e ao gesto): “Eh pá, olh’esta... mas entom nós num fomos capazes de preceber a Gabriela? E Sinhozinho Malta e a Biúba Porcina?”.Pelos vistos, o desejo da produtora da novela portuguesa foi apenas o de vender o artigo e de entrar no mercado, pois outras já vêm a caminho. Ao contrário das produtoras brasileiras, mandou assim às malvas a divulgação cultural e talvez mais não nos reste do que a “teimosia” de Saramago em não permitir a “tradução” das suas obras e assim continuar a mostrar as “coisas” do avozinho... porque até um grande grupo económico português aqui radicado com BIG hipermercados, verdadeiramente continentais e modelares, se “esqueceu” de encomendar Bolo-Rei para o Natal pelo simples facto de que o gerente nunca tinha ouvido falar de tal iguaria portuguesa.... o próprio mo disse!

 

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publicado às 10:42




  


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