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DNA

por neves, aj, em 19.01.05

18/01/2005 - 20h36m


O efeito DNA
 

RIO - Para o bem ou para o mal, decifrar o enigma do DNA virou a cabeça dos carnavalesco. Como recriar... o choque, o assombro, o deslumbramento gerados pela impactante pirâmide humana do DNA, da Unidos da Tijuca, a alegoria-sensação do último carnaval?
Balé? Pantomimas? Esculturas humanas? Piruetas e acrobacias? Teatro? Circo? Tudo isso - e mais um pouco. É assim, misturando e experimentando, que as escolas, de A a Z, vão tentar alcançar neste ano a alquimia que criou a alegoria-viva da Tijuca em 2004.
Um trigal "humano", balançando ao vento, na Porto da Pedra; uma arquibancada da Sapucaí, em plena pista da Sapucaí, na Caprichosos; a Intrépida Trupe no abre-alas da Grande Rio; uma plataforma de petróleo no mar da Vila. E não pára aí.
A estrutura do DNA alegórico era radical: o carro era as 127 pessoas. Sozinha, a estrutura do carro talvez nem faça sentido, ou não emocione. O elemento humano é que dá vida a ela. Assim, o que se vê não é apenas uma coreografia tradicional, em cima de um carro tradicional. Os componentes - não dá para chamar exatamente de sambistas, se não sambam ou cantam o samba - são quase esculturas, quase estruturas, quase cenas-grafias (ok, ok, menos, menos, caros repórteres!).
  Na Tijuca, claro, a experiência DNA vai ser multiplicada. Mas não é uma clonagem, mera reprodução. Serão pelo menos quatro carros alegóricos com concepções que partem do que foi realizado no ano passado mas pretendem ir adiante. Além do abre-alas - uma estrutura metálica descrita como impressionante por quem viu -, há um carro inspirado em Drácula e seu castelo, outro imaginando o Planeta dos Macacos, e mais um que seria Alice e o País das Maravilhas. Só no abre-alas, serão cerca de 250 componentes (o dobro do carro do DNA), ensaiados exaustivamente e metodicamente.
Em entrevista ao site O Batuque.com, o carnavalesco Paulo Barros explicou assim a criação desse novo sonho de criação:
- Meu abre-alas deste ano não tem desenho, porque foi criado sem desenho. Ele surgiu da idéia e discutimos aqui no barracão e começamos a fazer o carro. Não tem planta e não teve desenho até hoje, por isso você pode produzir sem projetar, isso vem da imaginação.
Fala-se em quase 500 pessoas no total em cima dos carros coreografados da Tijuca.
Os principais ensaios ocorrem no barracão, onde estão as alegorias (mas acontecem também no Clube dos Portuários, na Avenida Francisco Bicalho, com componentes sentados ordenadamente, na posição em que estarão nos carros). Mas como estrutura e componentes formarão um só corpo vivo na Sapucaí, não é possível realizar os ensaios separadamente. É preciso treinar o tempo de subida de todo esse contingente nos carros, acertar a posição de cada um deles nas estruturas, analisar a sincronia de movimentos de cada um e do grupo todo com o samba cantado...
É quase uma segunda escola de samba dentro da primeira. A operação para botar esses carros-vivos na Sapucaí é complexa. Horas antes do desfile os grupos precisam estar reunidos num mesmo local, onde serão maquiados e caracterizados. Segundo estimativas, quase 900 componentes - 400 que desfilarão no chão - vão receber maquiagem especial na quadra do Portuários, onde será, digamos assim, a pré-concentração.
Além do abre-alas, o setor que promete arrepiar a Sapucaí é o que ilustra os versos do samba "Quando se abrem as portas do medo / Bruxas, vampiros, fantasmas da vida". Um grupo representará mortos-vivos, lembrando a coreografia de "Thriller", de Michael Jackson.
Essa influência do Carro da Criação - nome oficial da alegoria do DNA - sobre outras escolas pode ser indireta. Pode não inspirar necessariamente uma estrutura semelhante, tão abstrata e gráfica, mas alimentar a invenção de elementos alegóricos surpresas, de impacto.
  A Caprichosos terá dois carros-vivos: um, o ''Concentração'', representará o viaduto São Sebastião, que passa sobre a Presidente Vargas, paralelamente ao Sambódromo. O viaduto é um inferno anual na vida de metade dos carnavalescos, obrigados a armar as escolas do lado do edifício Balança Mas Não Cai e, portanto, a passar com seus carros alegóricos parcialmente demontados sob o viaduto, pouco antes de entrar na avenida. A performance do ''Concentração'', prometem, simulará a implosão do viaduto. Será?! Para o carnavalesco Chico Spinosa, trata-se de retomar a irreverência, o espírito alegre e debochado da Caprichosos.

O outro carro, "Arquibancada", é uma estrutura que recriará em plena pista de desfile uma arquibancada do Sambódromo. Nela estarão 320 foliões, que sambarão, pularão, baterão palmas (tudo ensaiado; cada movimento é sincronizado com um trecho do samba). Até uma "ola" eles farão. Quem estiver nas arquibancadas de verdade vai se sentir como diante de um espelho, vendo uma arquibancada de "mentirinha" passar na sua frente. No ensaio técnico da Caprichosos, da última sexta-feira, o grupo se apresentou como uma ala comum, mas executou a coreografia do dia do desfile.
A Porto da Pedra poderá ter o carro alegórico que rivalizará em invenção e impacto com o abre-alas da Tijuca. É o segundo carro, o do Boi Ápis ("Eh, Boi Ápis / Lá no Egito, festa de Ísis..."), onde estará um enorme trigal. Centro e vinte componentes da escola "interpretarão" (se é que essa palavra cabe) esse trigal. Eles serão ao mesmo tempo elemento cenográfico e composição coreográfica.
Coreografias e encenações não foram inventadas no ano passado, claro. Desde a década de 60, as escolas vão e voltam, o pêndulo balança entre a defesa apaixonada do samba espontâneo, livre, e o desejo de reinventar a festa com o passo marcado, a dança e o teatro. O Salgueiro de Chica da Silva foi isso, com seu histórico minueto. Rosa Magalhães cria, sempre que pode, pequenas cenas de teatro sobre alguns de seus carros. Em 93, a Portela botou um casal, vestido de noivos, em cima da alegoria que representava o bolo de casamento. De longe, pareciam duas esculturas. De repente, eles se moviam! Era gente de verdade. Essa paixão que nos divide - samba ou coreografia? - então não é nova. Mas o carro do DNA a reacendeu. Qual o limite?!
- Um desfile com cinco ou seis alegorias assim pode ficar repetitivo e até comprometer o quesito alegoria e adereços - analisou Ricardo Fernandes, diretor geral de carnaval da Porto da Pedra, que preferiu buscar um equilíbrio, com concepções diferentes para cada alegoria do próximo desfile.
O carro de Baco ("Eh, Deus Baco / Bebe sem mágoa / Você pensa que esse vinho é água..."), por exemplo, terá seis grandes tóneis, com seis casais pisando uvas como se produzissem vinho. É uma solução mais tradicional. Outro carro, o do Entrudo, será teatralizado, numa grande brincadeira de carnaval com o público. A idéia é tentar interagir com quem estiver em arquibancadas, frisas e camarotes.
Na Mangueira, três carros alegóricos terão coreografias, entre eles o abre-alas, segundo informou o carnavalesco Max Lopes. Todos os participantes são bailarinos, somando aproximadamente 100 pessoas. O ensaios, afirmou, acontecem em uma academia. Mas ele não disse quando, como, onde ou quem ensaia. A Mangueira é a escola dos mistérios insondáveis de 2005. Mais do que a Tijuca, que ensaia seus carros-vivos no barracão, evidentemente, em segredo.

Mas não é só em alegorias que a Estação Primeira vai trocar o samba pelo balé. Segundo informa a escola, a coreógrafa Regina Sauer - responsável pelo ''Mar Vermelho'', apresentado no enredo ''Os Dez Mandamentos'' - ensaia 360 pessoas, que vão se exibir ora como uma única grande ala, ora como sete alas independentes coloridas. Elas vão representar a ''Energia Vital'', e encerrarão o desfile da escola.

No ensaio técnico do último domingo, na Sapucaí, o grupo executou a complexa coreografia (ou parte dela, nunca se sabe ao certo). A palavra grupo, em vez de ala, talvez cause algum estranhamento. Mas ela parece mais correta porque os fundamentos daquilo que o povo do samba chama de ala - o canto do samba, a dança livre e apaixonada, e a espontaneidade - não são visto ali. No domingo, o grupo "Energia Vital" evoluía animadíssimo, parte deles com guarda-chuvas abertos, outro com leques cor-de-rosa, num visual muito interessante. Mas muitos não cantavam o samba, marcavam os passos. 1, 2, 3, 4.... 1, 2, 3, 4... vira para direita, 1, 2, 3, 4.... É uma ala?!
Mas é certo! O impacto do que ensaiam pode superar o "Mar Vermelho" (e talvez o do DNA), num espetáculo coreográfico (se funcionar) e estético bem carnavalesco, mas longe do samba no pé: lembra um bloco com marcação rígida: para um lado, para outro; para frente, para trás; todos juntos, só os da direita; todos juntos, só os da esquerda. A execução no ensaio técnico causou alguma tensão - além de um buraco na pista. Um diretor de hamornia chegou a reclamar alto:
- Se não estava totalmente ensaiado não era para fazer!
No que ouviu a resposta:
- O Max (Lopes, carnavalesco) pediu.
Pensam que acabou? Não, né!
A Grande Rio vai botar acrobatas da Intrépida Trupe no abre-alas, chamado "Mãe Terra". Não é a primeira vez que eles participam de um desfile, com suas piruetas, seus saltos mortais. Eles já foram vistos, em anos anteriores, na Mocidade. Se há espaço nas escolas para o balé e para o teatro, por que não para o circo?! A dúvida é o que farão.
Na Portela, cinco carros serão coreografados, entre eles o abre-alas, segundo o carnavalesco Amarildo de Melo. Por conta do enredo de cunho social (as Metas do Milênio, da ONU), a única regra na escola é que metade dos integrantes dos carros têm que ser da comunidade.
- Para bailarinos e atores é muito simples entender esse trabalho. Para o pessoal da comunidade, isto tem um outro sentido, um sentido mais social. O objetivo é integrar - acrescentou Amarildo.
Nem todos os componentes dos carros formarão esculturas vivas, coreografadas; alguns serão personagens que ajudarão a ilustrar o enredo. Os grupos, que começaram a ensaiar uma vez por semana em novembro, agora treinam quase todos os dias.
A Vila Isabel promete encenações em todos os seus carros alegóricos, com destaque para a Plataforma de Petróleo, construída no barracão como apoio de engenheiros, e que levará operários durante o desfile. Mas há grande expectativa em torno do carro que representa o Navio Negreiro, no qual será apresentada uma dramática encenação.
Com tanta coreografia, a pergunta: e o samba?
Cadê?!

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publicado às 11:37




  


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