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Uma por dia 16

por neves, aj, em 15.03.08

... a praia, a praia fluvial.
Quem tinha Dão não necessitava do Atlântico: desde jovens, os filhos de Santa Comba usufruíam do privilégio de gozar a calmaria estival das suas águas  onde cedo aprendiam a nadar e a divertirem-se em animadas brincadeiras.

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É certo que os espaços arenosos eram limitados, bastante, e os grãos de areia muito mais volumosos, grossos, desafiavam os pés mais sensíveis. É também verdade que estava ausente a (maravilhosa) sensação de impulsão dada elas ondas do mar, mas sobrava sombra, por exemplo, oferecida por frondosos salgueiros estrategicamente colocados à beira-rio onde sonecas eram tiradas e merendas saboreadas. Os penedos em laje, onde se secavam os corpos molhados e que também funcionavam como prancha para acrobáticos mergulhos, eram outra regalia ímpar. Uma das grandes vantagens das tardes de veraneio no Rio era que nenhum miúdo se perdia da vista de seus parentes ou amigos e não era necessário nadador-salvador empoleirado am cadeira: a vigilância era feita pelos olhos atentos e amigos dos mais velhos. Depois, estes, os mais velhos, cedo ensinavam os caçulas na arte da natação e sem aulas particulares de experientes professores aprendia-se a sobreviver. A tranquilidade e a harmonia reinavam.

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No entanto, cada vez que me era concedida a permissão de ida ao Rio ouvia um rol de recomendações. Mas antes, para obter essa concessão eu percorria uma verdadeiraVia Sacra, pior que preenchimento de formulário do IRS (apenas IR pelo Brasil). Começava por minha mãe a quem tinha de enumerar as "testemunhas abonatórias" de uma ida tranquila. Se a matriarca dizia não, era não e acabava-se a "discussão" acompanhada de choro e resmunguice, claro. Se porventura minha mãe até entendia que eu iria em boas mãos, tinha no entanto de passar pelo crivo das (boas) vontades de meu pai. Mais difícil, claro. Quando ouvia que "isso é com a tua mãe" corria logo em direcção a casa para preparar a toalha e os calções de banho: a ida ao Rio Dão seria um facto. Só se tornava necessário, nesses tempos que telefone era luxo só de alguns, levar a mãe à fala da pessoa responsável pela minha protecção.
Provavelmente em luta entre a felicidade de saber que eu me iria divertir e a inquietação que a minha ida ao Rio fora da sua alçada sempre lhe causava, minha mãe lá ia preparando a merenda para saciar o (meu) apetite voraz que uma tarde de diversão provoca. Claro que cada sandes (a moderna sanduíche) de omelete, de bacalhau frito ou de marmelada era intervalada de recomendações e a promessa de obedecer a quem estava a responsabilizar-se por mim. Já na rua ouvia de minha mãe a última das recomendações: que a água não tinha cabelos para eu me poder agarrar. Nunca me saiu da cabeça e ainda hoje a emprego. 
Isto passar-se-ia, talvez, até aos meus 13/14 anos. Não sei precisar. Depois, provavelmente pelo testemunho de que eu já saberia nadar, comecei a ter permissão de ir sozinho. Sempre com as recomendações atrás. Poderá parecer o contrário, mas sempre as levei a sério e respeitei sempre a água: tive sempre em mente que a água não tinha cabelos.

Fugindo destas recordações já que o tempo e o espaço no Voz nos falta (por tantas e tão boas que elas são) vamos à foto que hoje por acaso até são duas.
A primeira mostra-nos Um Trecho do Rio Dão: a mais célebre das curvas do Rio local do maior ajuntamento de pessoal na estação mais quente do ano. A referida fotografia retrata-nos, sem dúvida, um Dão ainda longe do Verão: o nível das águas está alto e os bancos de areia pouco extensos. É uma panorâmica e pouco mais haverá a dissertar. Já a segunda nos dá a visão do Dão em pleno Estio: atente-se no lençol ou cobertor estendido a secar no areal que é prova provada que o rio não era só diversão, mas também enorme tanque onde no Verão se lavavam as pesadas roupas de Inverno, e atente-se também nessa correnteza de pedras em primeiro plano, local de tão saborosas brincadeiras dos mais miúdos. No entanto, o título da fotografia merece um grande reparo: é que não estamos no Poço do Vento. De jeito nenhum. Ele situa-se (ou situava-se) mais acima, mais a montante.
Mas da rectificação e das memórias debruçar-nos-emos mais pormenorizadamente no nosso álbum SANTA COMBA DÃO - FOTOS ANTIGAS.

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publicado às 03:49




  


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