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Uma por dia 17

por neves, aj, em 20.03.08

... os moinhos, o caneiro.

O postal fala-nos em Praia na legenda, mas assente-se que não estamos no Verão. De jeito nenhum. É verdade que dois valentões se apresentam em calção de banho (apenas observáveis em foto ampliada no álbum) mas a correnteza e o volume de água a passar por cima das rochas do caneiro indicam-nos que a época balnear ainda está longe e os doisabusados, destemidamente empoleirados nas pedras dos moinhos, devem estar a curtir um dia de Sol de Abril. Talvez, Maio.

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Por outro lado vemos que os moinhos, essa aparente amálgama de pedras sobrepostas com três portas de onde brota água, ainda não foram montados.
Vida de moleiro não era fácil, não: antes das primeiras cheias do Rio, lá por Setembro, Outubro o mais tardar, tratava de desmontar tábua por tábua o moinho que lhe permitiu ganhar o pão durante o Verão e quando as águas baixavam era então altura de limpar tudo e fazer consertos, colocar rodízio e mós e ajeitar as pedras, levantar as paredes e pôr o telhado. Este moinho no Dão era como que a sua residência oficial de Verão onde passava grande parte do dia e da noite, muitas das vezes, já que não é de agora o aparecimento do "amigo do alheio" e por outro lado a época estival era altura de maiores encomendas. Sabemo-lo bem. É que esta vida de moleiro enfarinhado vivida entre mós e pás de rodízios, entre sacas de grão de milho e trigo etaleigas de farinha, não nos é alheia de todo. Dela também fizemos parte na nossa infância e adolescência embora não como operário e sim como auxiliar, antes acompanhante, de um primo que hoje, curiosamente ou talvez não, é industrial de panificação e que ainda conserva em funcionamento uma destas oficinas ancestrais fazedoras da melhor farinha. 
Os moinhos e o caneiro, este afinal uma correnteza de pedras artisticamente colocadas a "travar" as águas e que permite a passagem para a outra margem, funcionavam como uma fronteira. Para cá, para baixo ou jusante, era o Vento e os demais poços que já falámos. Era também o rebuliço e o divertimento, principalmente aos Domingos, o único dia de folga semanal no antigamente. Lá para cima, para montante dos moinhos, era como que outro mundo. Por caminho escavado entre rochas que até consegue ser perceptível no lado esquerdo da foto, mas melhor observável no  álbum SANTA COMBA DÃO - FOTOS ANTIGAS, alcançava-se zona muito mais tranquila que durante os dias da semana vivia praticamente deserta, embora, soubemo-lo mais tarde quando já bem  espigadote, fosse ambiente mais do que propício a encontros e trocas de olhares entre pares e que, curiosamente, anos após até deram o seu fruto. Não só o nosso, diga-se de passagem, mas nesta crónica preferimos recuar mais e sentirmo-nos ainda criança, deixar talvez para outra ocasião esses tempos da adolescência (belos e impossíveis de apagar) e antes lembrar que aos Domingos este local acima do caneiro se enchia de famílias. É verdade caros jovens de agora, os santacombadenses de então também se divertiam e a mais apetecível das recreações seria, sem dúvida, ir "passar o dia" no Rio. A família Neves não era excepção. Embora não indo ao Rio tantas vezes quantas as desejadas por este que vos tenta relatar de modo preciso as lembranças que lhe invadem a mente, os Neves do Outeirinho de vez em quando (ou seja um Domingo ou outro) lá partiam de armas e bagagens, literalmente, até às margens do Dão. O local escolhido era sempre ou quase sempre este acima dos moinhos, mas até lá chegar e assentar arraiais a família Neves passava por uma verdadeira maratona com a matriarca a andar numa autêntica roda viva. Logo de manhã, ainda cedo, era o finalizar de emalar a trouxa já alinhavada de véspera e que dava a ideia de irmos mudar de residência: eram as almofadas e mantas para nos estendermos sobre a areia, os calções de banho e toalhas, e provavelmente uma bola de borracha, eram alguidares e panelas, a grelha para assar as sardinhas e as respectivas, as batatas que seriam cozidas com a pele (fardadas), os pimentos que seriam assados nas brasas juntamente com a sardinha, os tomates e os pepinos para a salada, o azeite e o vinagre e as cebolas, os pratos e os garfos, a broa de milho, o garrafão de vinho e as garrafas de água e o inevitável melão que antes de "armarmos a tenda" mergulhavam de imediato na água do rio para refrescarem para o almoço. Se se acrescentar que todos os tarecos tinham de ser levados às costas em percurso de mais de um quilómetro já podem ver, caros amigos, que a ida ao Rio era um verdadeiro inferno principalmente para minha mãe. "Fico doente" desabafava ela quando no final do dia chegávamos em casa. Ah e já nos esquecíamos de dizer que quando a maralha estava toda junta éramos quatro varões e um pai (a gataria ficava em casa pelo quintal) e, dignos de registo, ainda haviam os esquecimentos da praxe: talvez um garfo ou uma faca, quem sabe um prato.
E por aqui nos ficamos, com estas recordações limpas e saudáveis livres de nostalgia daqueles tempos em que o Rio era o Dão e as memórias não estavam submersas por essaimensidão de água que agora vedes.

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publicado às 10:00




  


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