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Belezas da terrinha

por neves, aj, em 04.04.08

Esta entrada já devia ter saído há bastante tempo. Foi alinhavada e  cosida, mas no entanto foi depois desmanchada. Curiosamente nunca a deitei para o lixo. Mesmo com novos alinhavos adoptou sempre a mesma forma e não consigo modificá-la. Para meu sossego impõe-se que me livre dela, mas eliminá-la seria amordaçar a vontade e estrangular o pensamento.
Ei-la.

O Painel

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Não restem dúvidas que o painel de azulejos embeleza o ambiente em que se enquadra sendo digno de ser considerado como Postal de Boas Vindas. Livre de complexos e de mente bem aberta digo já que de maneira alguma os motivos nele gravados me embaraçam. Bem tenro nos anos aprendi a lidar com eles e minha mente não é obtusa ao ponto de os considerar nefastos ou perniciosos. Localizado à entrada da minha rua convivi anos com o painel do chafariz, dezenas de anos, e já que nos últimos tempos se encontrava emestado deplorável até lutei pela sua recuperação mais do que uma vez através da escrita no semanário Defesa da Beira. Defendi inclusive a colocação das bicas e das "caras de leão" que as ornamentavam e das pias ou suportes graníticos onde as gentes colocavam os cântaros, as vasilhas para encherem de água. O painel foi restaurado, na verdade, e só foi pena que o chafariz não fosse totalmente recuperado mesmo que não brotasse água e fosse apenas para visitante observar. Afinal, para mim, tratava-se de recuperar o Chafariz. Assim escrevi em comentário,19/08/2006, no espaço do amigo JVicente que em solidariedade para com os santacombadenses ausentes vai oferecendo imagens actuais da nossa terra natal e ainda acrescentei que desejava que a recuperação do painel jamais fosse uma "restauração de ideias". Fi-lo com ironia, claro, mas de forma inocente, digamos, não tendo pretendido enviar recado a alguém em particular como pode parecer muito menos à Autarquia actual (a prova é que da primeira vez que falei [no Defesa] nessa "restauração de ideias" ainda estávamos em 2000 ou 2001) e sim a todos, a todos nós sociedade.
Inevitavelmente que o painel me dá mote de escrita, mas a inspiração para fazer floreados "sobre isto" anda um pouco por baixo e, por outro lado, não me sinto muito motivado. No entanto sinto necessidade de dizer algo para que não julgueis que ando para aqui a leste das coisas que vão acontecendo pela minha Santa Comba Dão e principalmente para que também não julgueis que não tenho opinião apesar de esta não ser tão taxativa ou clara (ou radical) como a de outros, talvez por culpa da emoção ou sentimento ou lá o que seja que me "ataca".  Reafirmo que sinto pouco entusiasmo porque é deveras complicado isto de amar alguém e tomar uma posição que pode ferir os seus interesses.
Leio, por exemplo, que a Casa-Museu Salazar ou Centro de Estudos do Estado Novo ou outro nome que já tivesse surgido (juro que não estou a ser irónico) pode ser benéfica para o desenvolvimento do meu município e que é com este único intuito que se luta pela construção do citado. Em parte sou obrigado a concordar dado um certo adormecimento existente e um tão necessário desenvolvimento, perguntando-me no entanto (tenho direito a tal) se é esse realmente o único motivo que move TODOS os defensores. É que ouço dizer por aí que Salazar foi, é, um santacombadense ilustre e como tal deve ser perpetuado, perguntando-me eu então se Salazar foi um grande de Santa Comba Dão na luta pelo progresso da sua terra natal. A resposta todos a sabemos se tivermos a coragem de fazer a mais simples das deduções: se fosse terra desenvolvida não se estava agora a lutar pelo desenvolvimento. E assim constato como que uma contradição já que essa "grandeza" constantemente atribuída a Salazar não é pelo que fez por Santa Comba Dão e sim, como que por orgulho regionalista, pelo facto de ter estado à frente dos destinos de Portugal com a perigosidade de, afinal, podermos estar a perpetuar a sua acção política. Dir-me-ão que o homem e a sua acção são indissociáveis... eu sei, mas se queremos realçar o santacombadense Salazar é bom então que se escreva, que seja plenamente divulgada toda a "acção" salazarista já que me invadem temores de o lugar se tornar num local de culto a um modelo que não deve existir mais na sociedade dos homens.

Sinceramente que a edificação da tal Casa/Museu/Centro de Estudos a mim não me atrapalha nada, por mim não temo já que burro velho não muda assim de opinião e digo ainda que jamais terei problemas em conhecer/visitar a obra se ela for avante. Dir-me-ão, principalmente os opositores à construção, que é condenável esta minha indiferença, este laissez-faire, mas creiam que (independentemente da forma como a estrutura for organizada) cabe também a nós, sociedade, Escola e pais, mostrar a realidade aos nossos filhos falando-lhes na Guerra Colonial, por exemplo, que matou e estropiou milhares e milhares de jovens, falar-lhes sobre a liberdade que Abril lhes deu para poderem agora expressar-se (livremente como eu o faço neste preciso momento sem lápis a cortar-me) e, muito em especial, contar-lhes o que os nossos pais nos contaram: da célebre divisão da sardinha por três, que para alguns não era metáfora não, era fome, da falta de dinheiro para médico e medicamentos, de terem que mendigar uma colocação ou emprego ou mesmo "um dia de jorna". Contar-lhes também o que os nossos olhos iam vendo, dizer-lhes que na Escola éramos obrigados a gritar a todos os pulmões que Angola era nossa e a metermos nas nossas consciências que os negros eram nharros e turras (de terroristas), lembrar-lhes ainda a condição de obediência e subjugação injectada à mulher: bordar e coser, cozinhar e lavar, ser mãe, tratar dos filhos, servir o marido e estar pronta para o marido "se servir dela", tudo em prol da família e com o beneplácito da Igreja. Não esquecer ainda de relatar às filhas (compreensivelmente as destaco) que antigamente a palavra igualdade não fazia parte do dicionário delas e que a mulher comum nem era considerada cidadã já que, apesar das eleições fantoches, nem constava dos cadernos eleitorais ou se, por exemplo, fosse professora primária teria que pedir autorização ao Estado para casar. Contar-lhes ainda, aos nossos filhos e alunos, da inexistência de ensino e saúde públicos, de na altura estarmos orgulhosamente isolados no mundo, de pertencermos e não sermos respeitados na Europa, de vivermos na Europa sem sermos europeus, falar-lhes das dificuldades e da necessidade de emigrar, falar-lhes do medo, da polícia política que levava a qualquer hora do dia ou da noite todo aquele que era contra o regime, de ouvir rádio a medo, da existência de um partido único e da inexistência de eleições livres, de Presidentes de Câmara que eram "tropas do regime", da existência de bufos (padres, professores, colegas de trabalho) que denunciavam os "contra-a-situação" que, tantas vezes, nem sabiam o que era isso, que nada percebiam de política e só tinham (re)contado esta ou aquela piada ou anedota ou só teriam emitido um desabafo qualquer.
Na verdade, e em final de crónica, o meu maior temor não é Casa/Museu/Centro ou até Estátua e sim este: que a juventude, descrente com os difíceis tempos que atravessamos se iluda com falácias e historinhas mal contadas do antigamente e a leve a formular conceitos aberrantes para aplicar em uma sociedade que se quer justa e onde seja facto a igualdade entre pessoas independentemente da cor de pele, da nacionalidade, da condição social e dos credos religioso e político.

Post-scriptum - a "minha Maria" chamou-me a atenção para o tom cinza do texto já que tenho vindo a escrever a azul. Digo-lhe que talvez seja para combinar com o céu que hoje S. Paulo nos oferece, cinzento e triste, afinal condizente com o Portugal de antigamente.

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publicado às 21:52




  


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