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Oi, mãe!

por neves, aj, em 05.07.10

 

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... mil pétalas, leves como penas
uma rosa, uma rosa apenas
vermelha, branca ou incolor
diz não só amor, também dor!

palavras em rima redigidas em 2005

Hoje é Segunda-feira.
Curiosamente, há 34 anos, no longínquo ano de 1976, também o 5 de Julho calhou a uma Segunda-feira. Lembro-me bem, porque era dia [noite] de ir ver um filme com os meus amigos Eugénio e Henrique. Andávamos em Coimbra. [Tu sabes]. Afinal não fomos ao cinema, e não fomos porque me chamaste. Demasiado tarde, é certo, mas como ias tu adivinhar que a [tal] hora que todos temos certa ia chegar no fim de tarde dessa Segunda-feira? Se soubesses tinhas-me dito de manhã quando me fui despedir de ti, estavas tu sentada naquele cadeirão [maple?] forrado a napa em cores negra e vermelha que nem sei se ainda existe lá por casa, pela tua casa, que teu pai meu avô construiu há para aí um século. Teria sido bom para mim estar por perto, a teu lado, mas acredito que tu talvez não gostasses de me ver presente. O amor tem dessas coisas. Quando se ama não se quer magoar, ferir, e nas horas más, fatídicas, deseja-se que esteja longe, bem longe, quem se ama. Para não fazer sofrer. E o teu temor era que eu, magoado, brutalmente ferido, não soubesse reagir de modo adequado. Contudo, acredito que na despedida que tivemos, afinal a última vez que falámos directamente e que nos olhámos nos olhos, me tivesses  avisado, mais uma vez, de que algo ruim ia acontecer. Com palavras subtis, claro. Lembro-me que chegaste a falar-me de morte, da tua morte, mas sempre com a ternura própria de mãe. Sem lágrimas nem revolta contra quem quer que fosse, nem sequer contra a divindade em que sempre acreditaste e fielmente seguiste. Sou testemunha, como também a presença constante do Evangelho à cabeceira da cama o é. E a sua leitura, registe-se, porque o livro não era adorno. Sei que deves lamentar por eu não ter seguido esse teu pensamento, por não ter herdado as tuas crenças, apesar de tanto teres batalhado, e até de manifestar a minha revolta por teres partido tão cedo, tão demasiadamente cedo que para além de me ter amputado de mãe me condenou para todo o sempre de não poder beijar o teu rosto enrugado, que haveria de enrugar, melhor dizendo, porque naquela altura as tuas rugas eram ainda nulas ou quase nulas, afinal como as que o meu organismo ostenta agora. É, mãe, é curioso mas o meu registo de nascimento assinala actualmente a idade crítica com que me deixaste, exactamente a mesma idade com que partiste. E eu não quero morrer já. Não sei se o sentiste, nunca me disseste, mas acredito que sim. Que sentiste isso, que era cedo, e só a fé, a obediência a um ser que assimilaste como superior te impediu de mo dizeres. Também por isso, creio, nunca te vi chorar durante aqueles meses de agonia e talvez por isto é que eu não chorei, nunca chorei com a tua morte. Talvez precisasse, mas já deve ser tarde, não sei, contudo como me sinto aliviado em escrever na tua direcção acho que falar contigo assim é bem mais produtivo que uma ladainha ou que um litro de lágrimas derramadas.
Inté.

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publicado às 11:11




  


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