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Dente 38

por neves, aj, em 25.07.12

... não vos assusteis com o número [levando em conta que nos é dito na Escola que a dentição completa de um homem adulto é de "apenas"  32 dentes] porque ele refere-se à notação dentária atribuída pela Federação Dentária Internacional. Trinta e oito é a identificação do dente a que me refiro: o algarismo 3 indica que o dente pertence ao quadrante inferior esquerdo [a metade esquerda do maxilar inferior] e o algarismo 8 indica que é um molar, o terceiro molar. Ou seja, o dente 38 é a mó lá do fundo, conhecido como "dente do siso" e que o Povo diz sinal de juízo, porque os dentes do siso só se desenvolvem [são quatro] quando o homem está já a caminho da idade adulta.

Eu hoje vou falar-vos do meu dente 38, o terrível, que durante o pretérito fim-de-semana me chateou de tal ordem que me levou, ontem, Segunda-feira, à urgência médica. Mas antes de vos narrar a minha epopeia torna-se necessário fazer um pequeno preâmbulo para vos lembrar que, conforme vos disse aquando de uma urgência, ando em tratamento dentário na Clínica Odontológica da Faculdade de Odontologia da USP-Universidade de São Paulo. Podendo parecer como tal, atente-se que não me sinto como cobaia, afinal trata-se apenas de uma troca de serviços: eu recebo tratamento gratuito e os futuros médicos e médicas dentistas têm a minha boca e dentes à disposição para se aperfeiçoarem nas técnicas. Sem receio, entrego-me. Afinal, lembrai-vos que nem o mais cotado e celebrizado profissional nasceu ensinado e, claro, necessitou de "matéria viva" para se qualificar. Não seria necessário, mas diga-se que toda a conduta dos futuros dentistas [que são chamados de doutores] é feita com supervisão de um profissional qualificado [que é chamado de professor] e se é verdade que nem sempre a "coisa" corre como gostaríamos que corresse, tem de haver compreensão e tolerância um pouco à semelhança de quando consentimos que o aprendiz de barbeiro/cabeleireiro nos toque: pequeno corte ao escanhoar ou tesourada a mais no cabelo podem acontecer. Será ainda interessante de referir que a idealização do presente texto me trouxe à memória a questão da apetência do ser humano em trocar a esquerda pela direita [ou vice-versa], por distracção ou burrice, sendo que em Medicina a troca pode tornar-se grave, muito grave, bastando para isso lembrarmo-nos dos casos em que o cirurgião opera a mão ou o pé errado. Claro que a culpa incidirá imediatamente sobre quem actua [cirurgião no caso], mas quem redige no prontuário ou processo do doente também não poderá estar isento. Afinal de quem será a culpa? Certamente dos dois ou de toda a equipa. Feito por distracção ou ignorância [apesar de que me recuso a admitir tamanha calamidade] pode muito bem outrem encontrar esquerdo escrito na ficha do paciente, quando deveria constar direito, ou, também, 38 quando deveria constar 48, e se esse outro profissional que veio depois acredita piamente no colega anterior e, casmurro, não leva em consideração as palavras de defesa do doente, o erro médico pode acontecer. Mas, atenção, ontem, Segunda-feira, na urgência da Clínica Odontológica da USP,  não foi propriamente um erro o que aconteceu comigo, não fui propriamente lesado, só que a cena dá para nos levar à reflexão. O que se passou dará talvez para fazer entender como a redacção errada de um simples numeral [não me pergunteis se por distracção se por burrice] pode levar a uma discussão comprometedora para o bom relacionamento entre médico e doente tão necessário para que o tratamento tenha sucesso. No caso do dente 38 valeu [valeu-me] a doutora aluna, porque a "prof" como que nos meio-abandonou à nossa sorte, mas, diga-se em abono da verdade, que depois da tormenta chegou-se a bom porto.

Quando fui chamado para ser aliviado das dores que me apoquentavam, fui recebido pela professora a qual após rápido interrogatório à minha pessoa [o que o traz por cá e etcetera], observação da boca e consulta à minha ficha de registo de passagens anteriores pela urgência, mandou funcionária fazer um Rx aos dois dentes onde eu tinha a sensação de dor e "ao 38", porque no seu entender a dor irradiava de lá visto que os tais dentes que me transmitiam a sensação de dor não podiam fazer doer: estavam mortos [já tinham passado por tratamento de canal durante as minhas consultas na casa]. Confirmado o diagnóstico, ordenou à aluna dentista que tomasse conta do 38 e elucidou-a dizendo que o dito já tinha passado por dois "curativos ao canal" ou seja tratamento de urgência feito unicamente para retirar a polpa dentária atacada de infecção. Diga-se que esta polpa encontra-se no canal dentário, é a vida do dente e formada por vasos sanguíneos e [famigerados] nervos que, quando o dente adoece, nos levam a dor ao cérebro. Não, não, professora, nunca tive problemas neste dente, atalhei eu logo de imediato, e seguiu-se diálogo nervoso. Você esteve cá na urgência em Maio por duas vezes para tratar este dente. Estive, a uma Quarta e a uma Sexta, não me lembro dos dias, mas para tratar este dente aqui, e levei o indicador à face para indicar o dente do lado oposto, do lado direito. Você está equivocado, no registo consta 38 e eu sei bem qual é o 38, atalhou de modo brusco como parecendo ofendida no seu saber. E, fazendo careta de sabichona, mandou a aluna começar. Senti como me estivessem a passar um certificado de asno ou, pior, de louco. Eu não estou maluco professora, vim cá para tratar o último molar do lado direito e não este que está agora doente, do lado esquerdo. Com um encolher de ombros, zarpou a resmungar [provavelmente ofendida com o atrevimento do paciente resmungão] e a minha doutora convidou-me a sentar. Sentei. Calado, mas lixado, afinal eu até precisava de ajuda. Acrescento que me senti constrangido e deu-me vontade de ir embora. Comece doutora, ouviu-se arrogantemente na sala. A simpática menina tratou de me esclarecer o que íamos fazer [o que ela ia fazer, mais propriamente] e logo surgiu o primeiro problema. Com a anestesia. Demorava a actuar. Mudou-se de anestésico e de local de administração, mas quando a broca começou a função, ó meus amigos, carago, e não me leveis a mal por dizer carago, carago. Dor insuportável. A doutora apelou à "prof", mas ela lá longe do alto do seu pedestal de mestre sabe tudo disse qualquer coisa como que já se tinham usado todas as técnicas e não sei que mais. Em suma, quis dizer, na minha maneira de ver, qualquer coisa como continua com a furadeira e o gajo que aguente. É só mais um bocadinho até chegar à polpa sr. António, tentava animar-me a aluna. Fez-se luz. Num lampejo, perguntei  em voz bem audível: doutora, afinal se é o 38 que consta no meu registo a coroa já devia estar furada e pelos vistos está virgem [tal e qual]. Eu bem vi os seus olhos olharem na direcção da professora e acho que teria sido neste momento que a casmurra se convenceu que o doente não era louco e que o dente que o tinha levado à urgência em Maio tinha sido o dente do lado direito, o 48 segundo me esclareceram, e não o dente 38, tanto que, apesar de não me tocar, fez questão de aparecer junto a nós para visionar o trabalho da sua aluna e dar mais algumas indicações. Propositadamente ou não colocou bem ao alcance dos meus olhos a minha ficha onde, nos dois último registos, constava na verdade e de forma bem nítida o numeral 38. Estes olhos que a terra há-de comer [o fogo, se cumprirem a minha vontade] são testemunhas: 38.

Posteriormente, em casa via internet, tirei as dúvidas e fiquei a saber que esta professora sabia identificar o dente 38 e que a equipa que me tinha acudido naquele mês de Maio tinha-se equivocado. Redigiu dente 38 quando deveria ter escrito dente 48. Por distracção, por ignorância? Jamais o saberemos. Acrescente-se que por indicação da senhora professora  não fui encaminhado como habitualmente para as consultas da Clínica para tratarem do canal do 38, mas sim para a "Fundação" [FUNDECTO, creio, mas não imagino o que seja e nem sei o que me espera] onde o trabalho é feito por "estagiários com mais experiência", segundo me foi dito pela menina da recepção. Que seja, mas a lista de espera está em "meio-ano", segundo a mesma recepcionista. Antes de me vir embora, agradeci à doutorazita e pedi desculpa por qualquer coisita. Pra "prof" nem um olhar sequer.

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