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Cobreiro, cobrelo, cobrão, zona...

por neves, aj, em 13.12.05

Herpes Zoster

(afinalnão eram "dores de parto", a situação era mais dura,muito mais... que as mães perdoem a brincadeirinha dacomparação)

Seriam umas17:30 horas (de Quinta-feira 8) quando eu deitado no bancotraseiro do Táxi, por as dores se tornarem cada vez maisinsuportáveis, rumei de volta ao Hospital das Clínicas parasaber dos resultados da análise à urina que, lembro, foidireccionada no sentido de pesquisar possível "pedra norim".

Por tão injusto que estou a ser narrando unicamente na primeira pessoa dosingular, abra-se aqui, e já, um pequeno parêntesis para homenagear com enormegratidão a dedicação de minha companheira,mulher, esposa que apesar de nunca ter lidado com situação detamanho calibre teve a calma e a paciência necessárias eprecisas para me apoiar e aturar... obrigado sócia.

A viagem que sesabia curta estava a tornar-se longa, demasiado longa... a minhamente tentava distrair-se com a paisagem urbana que passava pornós e ao mesmo tempo interrogava-se (nem todo o discernimento seperde) quanto ao aparecimento próximo ao umbigo de meia dúziade pequenas bolinhas em fila indiana. As pontas dos dedosbrincavam com as ditas bolinhas e longe estava eu de saber, porfalta de prática, que carregava juntinho à pele do corpo otrunfo p'ra descoberta da maleita.
Indultado de novo e sempre penoso processo burocrático por sóir saber resultado de exame, as portas da Emergência(Urgência) abriram-se mais facilmente e eu até já pareciafilho da casa. Ainda recordavam o paciente que se contorcia comdores e que até recusava a cadeira, por ser de todo impossívelsentar, gentil e solicitamente oferecida pelos outros utentes...e eu aqui tenho prazer em dar-lhes voz, de dizer como égratificante conviver com este povo que é livre da praga daspalavras meramente circunstanciais e que oferece afectos sem nadacobrar. É esse povo que faz a esmagadora maioria dos utentes dosServiços de Saúde Pública, os que não podem comprar o"pacote de saúde" através de caríssimos convénioscom empresas e que são tão publicitados via TV (poderosíssimomeio no Brasil) e tão enaltecidos que até dá a ideia de que asTACs deles descobrem o que não existe. Não sei se tamanhapublicidade aos planos de saúde e aos hospitais particulares(oferecendo os seus serviços como de um hotel se tratasse)causará algum constrangimento aos que não têm possibilidadeseconómicas... eu, por mim, já habituado ao Serviço Públicopor utente que já era do Serviço Nacional de Saúde Portuguêsrecusei-me a aderir a tamanho absurdo de pagar uma renda mensal auma empresa qualquer para me tomar conta do corpo e hoje sei que,em casos de maior gravidade me colocariam igualmente num HospitalPúblico ou, pior de tudo, se no plano de saúde que tivessefeito não constasse a doença (ou exames necessários) que meviria a atacar eu teria que me virar por outro lado ou entãopuxar, novamente, pelo cordão à bolsa... ora batatas.

Voltando ànossa... à minha dor.

A primeira coisaque a doutora (a mesma doutora) me disse é que a hipótese decálculo renal teria que ser descartada, já que a análise àurina tinha sido inconclusiva. Ao mesmo tempo que me mandavadespir a camisa logo lhe fui falando na tal meia dúziade bolinhas que me faziam cócegas... de imediato, o argutoespírito médico injectou a doutora para fora da cadeira e,observando-me (também) as costas, quase que gritou

herpes...Herpes Zoster

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e, não contendoa excitação, a doutora até foi chamar o colega que atendia noconsultório ao lado para também ele observar, porque afinal éassim que o médico evolui na sua profissão.
A conversa alargou-se a mais um... falou-se da dificuldade defazer o diagnóstico do Herpes Zoster pela ausência (inicial)das bolhinhas, o que para mim é perfeitamente compreensível,porque médico não é mágico nem bruxo, ele apenas faz o seujulgamento por interpretação de sintomas e sinais,socorrendo-se por vezes de exames complementares. A doutoraavisou-me que a doença ainda estava a instalar-se, que asvesículas iriam aparecer em maior quantidade e também não seesqueceu de me dar explicação clara do aparecimento da doençaque chegou até mim e que o povo brasileiro chama de cobreiroe eu apelidei de zona, motivo de risada para os doutorespor no Brasil tal vocábulo se referir também, e na voz popular,à zona onde estacionam as meninas vendedoras de prazer.

(em posteriornavegação pela internet fiquei a saber que afinal o cobreirotambém pode ser por aqui apelidado de zona e também de cobrelo,aliás como em Portugal... fica o convite para saber mais sobre o<ahref="http://vozdoseven.weblog.com.pt/arquivos/2005/12/herpes_ligacoes.html"target="_blank">HerpesZoster</a>, como se caracteriza, como aparece e até ascrenças populares, não faltando as rezas nas benzeduras)

A minha aventurapelo HC estava a chegar ao fim... a receita foi carimbada e assinada,apertaram-se as mãos, agradeci com reconhecimento à doutora eapesar de as dores não me largarem sentia-me mais aliviado.

Como cá paramim

– Pedro, o que tens?
– Senhor, um cobreiro

– Pedro, curai
– Senhor, com quê?

– Com águas das fontes
E ervas dos montes
Seca, seca, seca!






é pura conversapara boi dormir, como diz a minha sócia, parei na Farmáciamais perto de minha residência, tomei a injecção receitada eabasteci-me das pílulas, que ingeridas a tempo e horas nãonecessitam de cantilenas benzidas para se tornarem eficazes.
A saga das dores continuou por mais dois dias e só no Domingo demanhã senti um certo alívio. Desloquei-me à Farmácia paralevar mais uma injecção, a segunda de três, e já vim paracasa a pé quase cantando e rindo.

Hoje,Quinta-feira, apesar de ainda me sentir um pouco debilitado jáconsigo sentar-me por períodos mais longos e assim fazer chegaraté vós as novas que vão surgindo. Não me furto de vosrelatar o que me aconteceu (sei que para alguns poderá tornar-seem prosa desinteressante e até maçadora), porque para além dedivulgar, desmistificando (também) a doença, não me fica nadamal fazer o agradecimento público à instituição Hospital dasClínicas e, é sempre gostoso de dizê-lo, enaltecer oacompanhamento humano de que fui alvo.

(tendo em contaque o aparecimento do <ahref="http://vozdoseven.weblog.com.pt/arquivos/2005/12/herpes_ligacoes.html"target="_blank">HerpesZoster</a> é devido a uma diminuição da nossa defesaimunológica, eu procurei saber mais através de umespecialista... a seu tempo)


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publicado às 10:09


1 comentário

De Anónimo a 09.04.2018 às 13:49

Obrigado por ter partilhado o seu sofrimento. Tambem apanhei o mesmo virus e estou agora a tentar saber porquê e seis semanas depois de o ter descoberto e tratado tive há 2 dias as piores dores de que me lembro e durante todo o tempo que estive acordado. Hoje estou melhor mas a moinha por lá continua, e como uma nunca vem só, há cerca de 10 dias apareceu sangue na urina. Já tomei um antibiótico e tenho análises para fazer. Votos de que tenha ficado bem.

Valdemar Oliveiira
Bombarral - Portugal

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