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Obrigado senhor Luiz Inácio

por neves, aj, em 18.07.12

... na véspera a meteorologia tinha anunciado chuva, contudo, porque não chovia, saí de casa sem guarda-chuva tendo apenas como resguardo uma gabardina bege herdada do Zé da Silva meu sogro. Era Segunda-feira e a aurora ainda dormia a sono alto. Pra meu espanto o ónibus não se fez esperar e então reparei que ele era apenas meu: só eu como passageiro, o condutor e o cobrador. Trocámos saudações de bons-dias e, como fôssemos íntimos, entabulámos conversa sobre a ameaça de chuva e sobre o frio que se tem feito sentir em São Paulo. Falar do tempo continua a ser, em toda a parte do mundo, o melhor modo de se trocar palavras entre gente desconhecida e iniciar ou continuar uma conversa. Quando nada se tem a dizer, fala-se do tempo. Mas, no meu modo de pensar, a noite também ajuda na aproximação das pessoas. Apesar de me ter arredado continuo com a minha de que a noite é a  maior fazedora senão de amizades pelo menos de conhecimentos, contudo estou cônscio de que também de inúmeros problemas quando a personalidade está alterada.

Até à Estação de Metro de Vila Madalena não vi vivalma a caminhar pelas ruas e poucos automóveis se teriam cruzado connosco, a cidade parecia fantasma, mas sei que apenas estava adormecida. O buliço não tardaria. No cais de embarque não havia mais do que meia-dúzia de gatos-pingados e enquanto esperava pelo comboio/trem pensava cá com os meus botões da razão que teria levado a maquineta a chupar-me apenas R$ 1,21 [contra os habituais 1,60 reais] do Bilhete Único, o cartão que armazena os créditos de viagem previamente colocados e que permite desconto nas interligações. Vim posteriormente a saber [tinha que perguntar, ora] que viajar de metro/metrô fica mais barato se feito antes das 06:14 horas da manhã. No ónibus essa regalia não acontece, seguramente, porque tomei atento e vi que a maquineta absorveu os habituais 3 reais. O Bilhete Único é uma regalia posta em prática já após a minha travessia atlântica e dá para o Povão, especialmente aquele que vive na periferia e faz várias ligações entre transportes, poupar uns cobres: gastei R$ 4,21, mas atente-se que sem o Bilhete Único a viagem me ficaria em 6 reais e se antes tivesse apanhado/tomado outro ónibus não pagaria nada por isso. Sistema colocado por Marta Suplicy [PT] aquando Prefeita de São Paulo, de nada lhe valeu na reeleição: foi derrotada. Memória curta não é exclusividade deste ou daquele povo, está provado.

Eram exactamente 6:24 horas quando cheguei ao Hospital Brigadeiro cujas portas já estavam abertas, não propriamente ao atendimento [o expediente começa às 7 horas], mas para acolher os madrugadores que, como eu neste dia, desejam ser os primeiros da fila e/ou não gostam do buliço dos corredores hospitalares. Burrice minha. A primeira. Vim posteriormente a saber que o exame [USG] era à hora marcada na papeleta: 10 horas da manhã. Embrulha. O Hospital sito na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, que desagua na Av. Paulista e é célebre pela dureza oferecida aos atletas na parte final da Corrida de São Silvestre, é conhecido como o hospital dos transplantes, mas não quer dizer, necessariamente, que eu esteja a precisar de um transplante. Foi onde o "sistema" encontrou vaga e pronto. Virá a propósito contar que há sete anos fui encaminhado para o Hospital Emílio Ribas, conhecido como o hospital da AIDS, e o meu problema não se prendia propriamente com a famigerada doença da SIDA e sim porque o vírus do Herpes Zóster [doença popularmente conhecida como zona, cobrão, cobreiro] resolveu visitar-me e proporcionar-me as dores mais horríveis deste mundo.

A minha segunda burrice foi não ter aguentado na sala de espera [detesto sala de espera de hospitais ou consultórios, mui em especial as conversas] porque um paciente resolveu fazer gazeta e, ao que soube, a antipática funcionária chamou pelo meu nome. Toma, embrulha novamente. Ainda falei com ela, mas em vão. Insensível à minha treta de ida repentina ao banheiro/casa de banho, a mulher ainda mandou patada. Nada lhe disse, calei-me com as entranhas a remoerem. Propositadamente ou não, fez-me esperar mais e só após a chamada de outros dois pacientes é que se lembrou de mim. Quando passei por ela lancei-lhe um olhar fulminante carregado de raiva que se tivesse o poder de praga ainda ela a esta hora estaria sentada na privada/sanita. Deveria ter-se sentido já que após o exame quando chamou pelo Antônio para entregar o relatório/laudo nem olhou para mim. Levava outra dose de mau-olhado, mas na falta repeti-lhe que tinha tido uma "repentina volta de intestinos". Nada disse a múmia, contudo, não se vá julgar que a "coisa" correu mal, já que há sempre uma médica simpática e conversadora, perguntando e respondendo às minhas dúvidas, que nos põe à vontade e, diga-se a propósito, que até chegámos a falar de Portugal. Tenho orgulho no meu sotaque, como por aqui lhe chamam, bem identificador das minha raízes.

Quando saí em Vila Madalena, regressei a pé. Tinha que passar pelo açougue/talho e pela farmácia/drogaria. E foi aqui já perto da quitanda das drogas permitidas que as minhas tripas se revolveram novamente ao ver um vulto andrajoso agachado sobre sacos plásticos com lixo a devorar restos de melancia. Parei, claro. Toquei-lhe no ombro e um rosto inexpressivo coberto por uma barba espessa negra sem pêlo grisalho algum olhou para mim. Ofereci-lhe um sanduíche [masculino por cá] mas negou. Intrigado insisti, mas negou novamente e disse qualquer coisa que me pareceu relacionado com a sua entrada no bar. Nem me oferecendo a trazer-lhe a sandes até ele. Não e não. Avancei no meu caminho, mas um baque qualquer fez-me voltar e ofereci-lhe uma nota, com a condição [inútil, acho] de não a ir gastar em pinga [cachaça]. Maldito dinheiro, que até tem mais valor que comida mesmo para um esfomeado e faz abrir todas as portas. Sorrisos também, porque até as orelhas do desabrigado [os pertences que portava davam essa indicação] riram quando viu a nota azul de dois reais [a de um faleceu e um real já não dá para quase nada]. Obrigado Senhor Luiz Inácio foi a sua resposta. Pegou de imediato na trouxa e tratou de zarpar. Acelerei o passo perguntando-lhe o que queria dizer com aquela resposta mas o sorriso parece que lhe tinha comido a língua. Sorria apenas e dizia palavras imperceptíveis, enigmáticas. Desviou para rua fora da minha rota e eu fiquei a remoer o Obrigado Senhor Luiz Inácio. Até hoje de manhã.

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publicado às 15:06




  


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